Fundada a partir da fusão de três escolas do Morro do Salgueiro, em 05 de março de 1953, o Torrão Amado é uma das matriarcas do carnaval carioca. Ao longo de sua história, a agremiação tijucana ficou conhecida pelos enredos acerca de personagens negros da história brasileira. Ainda que as gerações mais novas conheçam a escola por ela “explodir o coração na maior felicidade”, é importante salientar que a história do Salgueiro vai muito além desse refrão.
Até o início dos anos 1950, co-existiam três escolas de samba no Morro do Salgueiro: a Azul e Branco, a Unidos do Salgueiro e a Depois Eu Digo. Cada uma tinha sua importância: a Azul e Branco, por exemplo, que era liderada pelo sambista Antenor Gargalhada, funcionou como uma associação de moradores nos anos 1930 quando Emílio Turano, que alegava ser proprietário das terras do morro, quis despejar os mais de 7000 moradores do local.
Mesmo assim, essas escolas não conseguiam ameaçar o domínio da Mangueira, Portela e Império Serrano. Por isso, após o carnaval de 1953, um grupo de sambistas, liderados pelo compositor Geraldo Babão, começou um movimento para a unificação das escolas de samba do morro. Num primeiro momento, houve a fusão entre a Azul e Branco e a Depois Eu Digo, fundando o Acadêmicos do Salgueiro. Posteriormente, os sambistas da Unidos do Salgueiro também aderiram à nova escola, fazendo com que a recém criada agremiação já nascesse grande: no seu primeiro desfile, em 1954, o Acadêmicos do Salgueiro conquistou o 3º lugar.
Nos anos seguintes, a escola seguiu fazendo grandes desfiles, com destaque para o carnaval de 1957, quando, com o enredo “Navio Negreiro”, trouxe a temática negra para o desfile.
”Em 59
Balançamos a roseira
Demos susto na Portela
Derrubando o Império e a Mangueira
Por 1 ponto e meio
Perdemos a grande vitória
Mas fomos vice-campeões
Com orgulho e glória”
Em 1959, como diz o samba de Binha, a escola balançou a roseira e foi a vice-campeã do carnaval, deixando Império Serrano e Mangueira para trás. Esse é um carnaval mítico para a escola. Isso porque, além de quase chegar ao título, a escola foi convidada para estar em Cuba num festival de cultura promovido pelo governo daquele país (a Portela, primeira colocada em 1959, não aceitou o convite) e chamou a atenção de Fernando Pamplona, que era jurado naquele ano. Em 1960, Pamplona veio para o Salgueiro para cumprir a função de carnavalesco, dando prosseguimento e ampliando o movimento que a escola já havia iniciado em 1957, ocasionando uma verdadeira revolução no carnaval.
Nos anos seguintes, a Academia do Samba ganhou o título de 1960 com “Quilombo dos Palmares” e homenageou Aleijadinho em 1961, Xica da Silva em 1963 (mais um título), Chico-Rei em 1964 e Dona Beja em 1968. Foi também no Salgueiro que se formou uma geração de grandes carnavalescos, como Joãosinho Trinta, Maria Augusta, Rosa Magalhães, Arlindo Rodrigues. Lícia Lacerda e Renato Lage. Todos esses chegaram à escola e ao carnaval convidados por Pamplona.
Com ou sem Pamplona, a temática negra se manteve presente na escola, como em “Festa Para Um Rei Negro” (1971), “Valongo” (1976), “Do Yorubá à Luz, a Aurora dos Deuses” (1978), “Templo negro em tempo de consciência negra” (1989), “Candaces” (2007), “A Ópera dos Malandros” (2016), “Senhoras do Ventre do Mundo” (2018), “Xangô” (2019), “O Rei Negro do Picadeiro” (2020), “Resistência” (2022) e “Salgueiro de Corpo Fechado” (2025).
E não é só no quesito enredo que o Salgueiro é fundamental para o carnaval carioca. Desde sua fundação, a escola contou com grandes compositores, como Noel Rosa de Oliveira, Geraldo Babão, Anescarzinho e Bala (clique aqui para acessar uma playlist com sambas de terreiro e sambas-enredo da escola), e uma excelente bateria, hoje conhecida como Furiosa. Foi também por conta do Salgueiro que surgiu o termo passista, para nomear Paula do Salgueiro, que cativava a todos com seus incríveis passos de dança!
Diferente de outras agremiações, que tiveram altos e baixos em suas trajetórias, o Salgueiro nasceu grande e se manteve grande ao longo dos anos. Isso pode ser medido tanto pela sua presença nas primeiras colocações do carnaval, como pela força da sua comunidade, sempre presente nos ensaios, ou ainda pelos seus enredos e seus sambas.
O último de seus 9 títulos foi conquistado em 2009, com o enredo “Tambor”. De lá para cá, a escola entrou na avenida como favorita algumas vezes, tendo sido vice-campeã em três ocasiões (2012, 2014 e 2015) e 3º lugar em outras duas (2017 e 2018). Em 2026, o Salgueiro vai homenagear a carnavalesca Rosa Magalhães, com o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”.
