O Império Serrano é uma das principais instituições culturais do Brasil. Fundado em 23 de março de 1947, ele nasceu a partir de um grito pela democracia. Insatisfeitos com as decisões antidemocráticas de Alfredo Costa, presidente da Prazer da Serrinha (agremiação que até então aglutinava os sambistas da região), vários integrantes, como Mano Décio da Viola, Silas de Oliveira, Tia Eulália e Sebastião Molequinho, optaram por sair da escola e fundar o Império Serrano.
E essa movimentação se deu num lugar especial, o Morro da Serrinha. Ocupado desde o início do século XX, era habitado por ex-escravizados e moradores expulsos do centro da cidade por conta das reformas urbanas do prefeito Pereira Passos. Muitos desses moradores eram trabalhadores do porto do Rio de Janeiro e participavam dos sindicatos que organizavam os estivadores na época. A dimensão da organização coletiva sempre esteve presente no Império Serrano, fruto dessa ligação de seus fundadores com as organizações sindicais de sua época.
Além dessa ligação com o porto, o Morro da Serrinha contava com outra característica muito peculiar: a prática do jongo. Originária da região do Congo, na África, o jongo é uma dança de umbigada, praticada junto ao toque de tambores. O jongo começou a ser praticado em terras brasileiras no Vale do Paraíba e foram os ex-escravos dessa região que levaram a prática para a Serrinha.
Com todos esses elementos em sua origem, o Império Serrano já nasceu como uma grande escola. Já nos primeiros anos, foi tetracampeão (1948, 1949, 1950 e 1951) e se consolidou como uma das gigantes do carnaval carioca. Depois desse começo arrasador, a escola ainda foi campeã mais 5 vezes, sendo a última vez em 1982.
E não foram só os títulos que fizeram o Império Serrano ser reconhecido como uma grande
escola. Como representante do Morro da Serrinha, a escola bebeu do que melhor havia por ali e foi também trazendo inovações ao carnaval, como o uso do agogô, do prato e a figura do destaque de escola de samba. Além dessas inovações, a ala dos compositores da escola sempre foi seu melhor cartão de visitas.
Além dos sambas-enredo, essa ala verde-e-branco ficou famosa também por seus sambas de terreiro, que animavam e movimentavam a escola por todo o ano. Muitos desses sambas são cantados até hoje nas rodas de samba. Entre os membros de sua ala, estão nomes como Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz, Aluísio Machado, Wilson das Neves, Beto Sem Braço, Mano Décio da Viola, Aniceto, Roberto Ribeiro e Jovelina Pérola Negra.
Na excelente discografia da escola, temos Exaltação à Tiradentes (1949), Aquarela Brasileira (1964), Cinco Bailes da História do Rio (1965), Herois da Liberdade (1969), A Lenda das Sereias, Rainhas do Mar (1976), Bum Bum Paticumbum Prugurundum (1982), Mãe Baiana Mãe (1983), Eu Quero (1986), Fala Serrinha, a Voz do Samba Sou Eu Mesmo, Sim Senhor (1992), Verás que Um Filho Teu não Foge à Luta (1996), O Rio Corre pro Mar (2001), O Império do Divino (2006) e Mangangá (2022).
Com o crescimento de outras escolas da região metropolitana e algumas dificuldades ocasionadas por suas opções políticas (não é permitida a existência de um patrono, por exemplo), a escola passou a ter dificuldades de se manter no Grupo Especial a partir dos anos 1990. Mesmo assim, a escola fez grandes desfiles, como em 1996, na homenagem a Betinho e 2006, com enredo sobre as festas religiosas do Brasil. Em 2022, a escola venceu a Série Ouro com um grandioso desfile e um excelente samba. No ano seguinte a escola foi rebaixada, numa das maiores injustiças dos últimos anos.
Para 2026, o enredo da escola será “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu”, uma homenagem a escritora Conceição Evaristo.
É difícil descrever o Império Serrano. A frase escrita no símbolo da escola a resume bem: uma escola de samba!
