“Quando Hilário saiu / Lá da Pedra do Sal / Reis de ouro surgiu / É carnaval”
(Caetano Veloso / Gabriel O Pensador)
Hoje, 06 de janeiro, é Dia de Santos Reis, conforme já fomos avisados por alguém que postou a música do Tim Maia em alguma rede social. Na tradição católica, esse dia marca a chegada de Baltazar, Gaspar e Belchior, os três reis magos, para visitar o recém-nascido Jesus Cristo. É o dia em que muitas famílias desmontam a decoração de natal por ser um marco do fim do “período natalino”. E, ainda que a princípio pareça estranho, essa data tem uma ligação íntima com o carnaval.
Ainda no século XII, há registros de comemorações desta data na Espanha, inicialmente apenas no ambiente litúrgico. Posteriormente, em Portugal, por volta do século XV, essas comemorações extrapolaram os muros das igrejas e passaram a ser uma festa de rua, chamada de Folia de Reis. Com a colonização portuguesa, essa prática chegou ao Brasil.
Por aqui, a Folia de Reis se misturou com tradições indígenas e da diáspora africana, incorporando outros ritmos e instrumentos. Nesse dia, segundo o historiador Luiz Antônio Simas, Segundo Luiz Antônio Simas, os “grupos de foliões visitam as casas dos devotos com estandartes e instrumentos musicais. Munidos de violas, pandeiros, reco-recos, sanfonas, chocalhos, cavaquinhos e triângulos, os foliões entoam músicas em louvação aos Santos Reis e recebem, em troca, oferendas propiciatórias ao festejo”.
Foi a partir de um grupo de Folia de Reis que foi criado o primeiro rancho carnavalesco, por Hilário Jovino. Morando no Morro da Conceição, ele fundou o “Reis de Ouro” na última década do século XIX, agremiação que foi fundamental para o carnaval de rua do Rio de Janeiro. Pernambucano radicado no Rio, ele resolveu levar essa lógica do cortejo religioso para o carnaval. Inspirado também nos reisados e maracatus, ele organizou desfiles mais estruturados, com estandarte, ordem e narrativa.
Hilário foi um grande agitador cultural, sendo também compositor. Ele fundou outros ranchos e foi fundamental para a consolidação desse modelo de fazer carnaval no Rio de Janeiro. Acabou por inspirar outras lideranças culturais, como seu sobrinho, Heitor dos Prazeres, e seu filho, Saturnino, um dos fundadores da escola de samba Vizinha Faladeira. Morador do Beco João Inácio, próximo a Pedra do Sal, Hilário faleceu em 1933, antes portanto da decadência dos ranchos e da hegemonia das escolas de samba.
O movimento de Hilário foi fundamental para consolidar o carnaval como uma festa de rua, popular. Depois dos ranchos, foram criados blocos e escolas de samba. Essa história foi bem resumida na música “O Enredo de Orfeu”, que deu início a esse texto (e ilustra nosso post no Instagram), parte da trilha sonora do filme “Orfeu”. Infelizmente, uma das poucas homenagens musicais a esse gigante chamado Hilário Jovino.
