Geraldo Pereira

Os 100 anos do Rei do Samba Sincopado

“Foi o rei do samba sincopado

Deve ser sempre lembrado

Este grande compositor”

(Monarco, Unidos do Jacarezinho, 1982)

Passou quase despercebido mas, em 23 de abril, o compositor Geraldo Pereira completaria 100 anos. Conhecido como o Rei do Samba Sincopado, Geraldo, que morreu em 1955 aos 37 anos, é autor de cerca de 300 músicas, várias delas que são verdadeiros clássicos da música brasileira.

Nascido em Juiz de Fora, Geraldo Pereira chegou no Rio de Janeiro ainda adolescente e foi morar na região do Morro da Mangueira, onde teve contato com rodas de samba e blocos de carnaval. Teve uma vida boêmia intensa, tendo frequentado os bares e cabarés da Lapa, no centro da cidade. Já estava com a saúde debilitada quando se envolveu numa briga com o Madame Satã, figura mítica da malandragem carioca da época, que foi decisiva para a piora definitiva de sua saúde.

Os temas das suas composições foram muito influenciadas pelos bambas do Estácio e pelo estilo de Noel Rosa: falou de amores e dos dramas de uma vida sem dinheiro. Sem educação formal, foi um cronista social que refletia as contradições da vida daqueles que viviam do trabalho e da malandragem no Rio de Janeiro da primeira metade do século XX. Acabou criando uma forma própria de compor que ficou conhecida como samba sincopado e que faziam muito sucesso nos bailes da gafieira da época.

Alguns fatos do período em que Geraldo Pereira viveu ficaram imortalizados em suas canções. É o caso, por exemplo, da criação do Ministério da Economia, lembrado na música homônima composta em 1951. A canção ironiza, de forma brilhante, a situação econômica da época, mostrando que a criação do ministério não tinha alterado em nada as condições efetivas de vida da maioria da população. A crítica social ainda aparece em outros sambas, como Cabritada Mal Sucedida, que fala sobre uma festa feita a partir do roubo de um cabrito.

Ainda que tenha sido Cyro Monteiro quem mais gravou o agora centenário compositor, as gravações mais conhecidas de suas músicas acabaram ficando a cargo de João Gilberto e Gal Costa (ambos gravaram Falsa Baiana) e de Chico Buarque, com Sem Compromisso (que na maior parte das vezes acaba sendo lembrada, erradamente, como uma música que teria sido composta pelo próprio Chico).

Geraldo Pereira não teve reconhecimento em vida e nem mesmo depois de sua morte. Talvez por nascer na mesma data que são comemorados o Dia de S. Jorge e o Dia Nacional do Choro, com certeza por ter vivido à margem da sociedade. Gostava de brigar, vivia sendo preso, Geraldo Pereira acabou sendo o próprio “escurinho que tinha mania de brigão”, como sua própria música afirmou.

Infelizmente, ele é mais um gênio negro brasileiro esquecido, ainda que suas contribuições como músico e compositor tenham sido inestimáveis. No seu centenário, é nosso dever lembrá-lo, saudando suas criações e sua contribuição para a música popular brasileira.

(clique aqui para acessar playlist com todas, ou quase todas, as músicas de Geraldo Pereira que estão disponíveis no Spotify)

07/05/2018