Paraíso do Tuiuti

Em 2018, o grande público conheceu o Paraíso do Tuiuti. Com “Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?”, a escola apresentou um desfile comovente, com belíssima plástica e politicamente crítico e engajado. Embalados por um ótimo samba-enredo e uma comissão de frente emocionante, a então pequena escola do bairro São Cristóvão ganhou o público na Sapucaí e na TV e saiu do desfile de domingo como uma das favoritas para ganhar o carnaval. 

Foi um arrebatamento coletivo. Num cenário de retirada de direitos e golpe parlamentar, esse desfile apareceu como um grito contundente, para o mundo, da situação que o Brasil estava passando (e ainda passa). O resultado também surpreendeu: o Paraíso do Tuiuti foi acumulando notas 10 e chegou ao vice-campeonato. 

Mas a história dessa agremiação é bem mais antiga e vai muito além de uma fantasia de vampiro com faixa presidencial. Fundada em 05 de abril de 1952, o Paraíso do Tuiuti é fruto da união de muitos sambistas do Morro do Tuiuti, localidade bastante próxima ao Morro de Mangueira. 

Desde os anos 1930, existem registros de que o Morro do Tuiuti abrigava sambistas. No clássico livro de Sérgio Cabral sobre escolas de samba, há, por exemplo, um relato sobre a ida de um repórter a uma roda de samba na localidade nesta época. Por lá, quem ditava o ritmo eram as escolas Unidos do Tuiuti e Paraíso das Baianas, que entraram em decadência na década seguinte.  

Essa debacle das duas escolas não acabou com o samba no morro. Ao contrário, fez com que os sambistas se unissem e criassem o Paraíso do Tuiuti. Ao ser fundada em 1952, a escola trouxe consigo esses anos de acúmulo e experiência. 

A proximidade ao Morro da Mangueira trouxe sempre um grande intercâmbio entre o Paraíso do Tuiuti e a Estação Primeira. Foi assim, por exemplo, com o carnavalesco Julio de Mattos, que começou na escola do Morro do Tuiuti e depois esteve à frente de vários carnavais mangueirenses. 

Depois de muitos anos desfilando nos grupos inferiores, alternando na maioria do tempo presença na segunda e na terceira divisão, o Paraíso do Tuiuti conquistou o título do Grupo A e chegou ao Grupo Especial em 2001. Infelizmente, não foi dessa vez que a escola se fixou entre as grandes, sendo logo rebaixada no seu primeiro desfile. Em 2016, com “A Farra do Boi”, já com o carnavalesco Jack Vasconcelos, a escola foi campeã da Série A. Novamente no Grupo Especial em 2017, veio a mudar seu patamar em 2018, com o desfile que abre esse texto. 

A mudança de patamar da escola trouxe novas responsabilidades e expectativas. De lá para cá, a escola seguiu apresentando bons desfiles e ótimos sambas, sempre com temas bastante relevantes, como em 2023, com “Mogangueiro da Cara Preta”, e 2025, quando, num desfile bastante emocionante, homenageou Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil.  

Em 2026, a escola vai trazer o enredo “Lonã Ifá Lukumi”, sobre um rito afro-cubano.