Nos anos 1950, uma das atrações mais esperadas do carnaval carioca, como mostra essa notícia do jornal Correio da Manhã, de 27/02/1954, era o Desfile das Repartições Públicas. Por mais que atualmente existam blocos ligados a instituições públicas (como o bloco “Inova Que Eu Gosto”, da FINEP) ou a associações/sindicatos de trabalhadores dessas instituições (como “Vestiu Uma Camisinha Listrada e Saiu Por Aí”, do Sindicato dos Bancários), soou bastante estranho esse nome e a importância dele.
Segundo notícias da época, os desfiles das repartições públicas aconteciam aos sábados de carnaval, desde pelo menos o carnaval de 1935, ainda antes da ditadura do Estado Novo. Havia uma competição entre elas e o bloco ligado ao Arsenal da Marinha (chamado de “Aí Vem a Marinha”) foi várias vezes campeão. Outras agremiações eram os “Destemidos da Casa da Moeda”, “Bloco da Prefeitura”, “Arsenal de Guerra”, “Ministério da Educação”, “Imprensa Nacional” e “Quem Trabalha Tem Razão”.
A mudança da capital para Brasília (e, com ela, milhares de funcionários públicos) acabou por enfraquecer esses desfiles. Outro fator foi o enfraquecimento das Grandes Sociedades, agremiações carnavalescas aos quais os desfiles das repartições públicas tinham grande proximidade. Logo na sequência, ainda veio a ditadura militar, que buscou controlar e reprimir a vida associativa.
O Desfile das Repartições Públicas não voltou a ocorrer mesmo com o fim da ditadura. Ainda assim, continuaram existindo agremiações carnavalescas vinculadas aos locais de trabalho, como o Bloco do Sintrasef, o Discípulos de Oswaldo (dos trabalhadores da Fiocruz) e o Escravos da Mauá (organizado por funcionários do INT – Instituto Nacional de Tecnologia), além dos citados no começo do texto.
As mudanças ocorridas nos locais de trabalho, com enfraquecimento das instâncias e espaços coletivos, dificultou ainda mais a formação e continuidade dessas agremiações. O melhor exemplo disso é o fim do bloco Imprensa Que Eu Gamo, ligado aos jornalistas, que foi formado a partir das redações dos grandes jornais e dos encontros que estes trabalhadores promoviam após o expediente; com a brutal diminuição das redações, o bloco perdeu o sentido em existir.
