Por Vinícius Prado*
O carnaval, para o forasteiro, começa sempre com uma promessa de redenção. A gente chega no Rio de Janeiro com aquela aura de quem vai, finalmente, entender o que é a alegria genuína, o êxtase coletivo. Eu, na minha estreia, não fui diferente. Acordei num sábado de manhã, e fui debutar na folia carioca no histórico bloco Cordão do Prata Preta. O nome, por si só, já evoca uma tradição que eu, na minha provinciana ignorância, ansiava por profanar.
Meu anfitrião, Bernardo, um sujeito que já havia negociado sua alma com a folia há anos, me apresentou à sua trupe. E foi ali, naquele ajuntamento de conhecidos e semi-conhecidos, que a filosofia do bloco se materializou: um estandarte. Não um estandarte qualquer, com santos ou musas. Não. Era uma bunda. Uma bunda pintada de glitter amarelo, com os dizeres, em tipografia duvidosa, “Rabas Brilhantes”.
Aquele objeto, devo confessar, era a síntese perfeita da minha busca existencial carnavalesca: a glória efêmera, o brilho superficial e a completa falta de pudor. Era o nosso farol na multidão, a prova cabal de que, sim, éramos especiais, pois tínhamos uma bunda brilhante para nos guiar.
Acontece que a vida, e o carnaval mais ainda, é uma sucessão de escolhas ruins. E a minha, já no crepúsculo do bloco, com o cérebro operando em modo de emergência química, foi aceitar a honra de carregar a “Rabas Brilhantes”. Naquele momento, eu era o herói, o porta-estandarte da comuna gliterizada. Saí em riste, feliz, como um cavaleiro medieval que acabara de receber a lança sagrada, só que a minha lança era um traseiro purpurinado.
O grupo, como toda promessa de felicidade, se desfez. Aos poucos, a coesão social se esvaiu, e eu me vi reduzido a um trio patético: eu, a “Rabas Brilhantes” e uma amiga de Curitiba e seu namorado. Fomos parar na Pedra do Sal, e é aí que a crônica se torna um exercício de arqueologia da memória.
Segundo o casal, que parecia ter mantido um mínimo de sanidade para testemunhar minha derrocada, eu fui repreendido por locais por urinar onde não devia. É o momento em que o Editor da Vida — essa entidade sádica que rege nossos piores momentos — decide que o plot estava lento demais. Ele fez um corte brusco, um fade to black na linha do tempo da minha existência.
Quando o filme recomeçou, o cenário era familiar, mas a situação, kafkiana. Eu estava sentado no meio-fio, em frente ao prédio do Bernardo, meu anfitrião. A “Rabas Brilhantes” estava ali, ao meu lado, como um troféu inútil de uma guerra perdida. Mas a chave do apartamento? O cartão do banco? A CNH? Tudo evaporado, levado pelo mesmo vento que dispersou o glitter da bunda.
Comecei a mandar mensagens desesperadas para os entorpecidos que deveriam estar lá dentro, dormindo o sono dos justos ou dos bêbados. Nenhuma resposta. A derrota era iminente. Eu era o guardião de uma bunda brilhante, mas estava preso do lado de fora, na sarjeta, um monumento à minha própria incompetência.
Eis que, no auge da minha miséria existencial, surge um anjo. Um amigo, também de Curitiba, que passava por ali.
— E aí, Vinicius, tudo bem? Você tá aí no Bernardo, né? Trouxe uma encomenda pra ele.
Eu, com a dignidade de um cão sarnento, respondi que estava sem as chaves. E ele, com a naturalidade de quem anuncia que o dia está ensolarado, soltou a bomba:
— Olha pra trás. O prédio tá aberto.
O prédio. Estava. Aberto.
Eu não sei quanto tempo passei ali, sentado, guardando a bunda brilhante, lamentando a perda de meus documentos e a falência da minha vida adulta, enquanto a porta, a solução para todos os meus problemas imediatos, estava escancarada. É a metáfora perfeita da vida: a gente se agarra ao caos, à tragédia, ao estandarte ridículo, e ignora a porta aberta.
No dia seguinte, a ressaca era a única coisa mais sólida que o estandarte. Ao tentar sair para a nossa via-sacra dos blocos, veio o segundo ato da comédia:
— Como é que a gente vai colocar essa bunda no Uber? — perguntou Bernardo. — Como você fez ontem? — retrucou o sujeito que, teoricamente, me viu chegar.
Eu olhei para ele com a sabedoria de quem tinha acabado de voltar do limbo e respondi, com a honestidade brutal que só a falta de memória proporciona:
— Eu não sei nem de onde eu vim, vou saber como coloquei o estandarte no carro?
E assim, entre rabas brilhantes e portas abertas, o carnaval me ensinou a lição mais valiosa de todas: cuide da sua consciência como você cuida da sua raba.
*Vinícius Prado é historiador, poeta, cronista e folião.
