Bolívar, a Venezuela e a Sapucaí

Em 2006, a Unidos de Vila Isabel fez uma escolha ousada para seu desfile: com o enredo “Soy loco por ti, América: a Vila canta a Latinidade”, a Vila fez uma homenagem a Simón Bolívar, trazendo uma parte importante da história da América Latina para a Sapucaí. O resultado foi excelente, visto que a escola conquistou naquele ano seu segundo título.

Naquela época, a Revolução Bolivariana na Venezuela estava em seu auge e a PDVSA (petroleira estatal daquele país) foi uma patrocinadora do desfile da agremiação e do carnaval como um todo, com direito a deixar o Sambódromo todo envelopado com propagandas da empresa. O preço do petróleo estava em alta e isso permitia que o governo venezuelano expandisse suas ações, levando suas ideias para outros países.

E quais eram essas ideias? Depois de décadas com governos elitistas e que usavam o Estado a seu favor, a Venezuela experimentava pela primeira vez um governo popular, que pretendia retomar os ideais de Simon Bolivar, um dos articuladores e líderes de diversas independências de países da América Latina. O presidente da Venezuela de então, Hugo Chávez, chamou esse processo de Revolução Bolivariana.

A Revolução Bolivariana foi responsável por diversas medidas de distribuição de renda e participação popular, nacionalizou empresas de petróleo, energia elétrica e cimento, reconheceu direitos dos povos indígenas e buscou promover a integração latino-americana. A propaganda da Revolução sempre foi um ponto importante e o patrocínio a um desfile de escola de samba no Rio de Janeiro estava dentro desse contexto.

Mas esse processo todo viveu diversos altos e baixos, especialmente porque dependia do preço dos barris de petróleo para financiar as suas políticas sociais. A Revolução Bolivariana também enfrentou adversários, como os estadunidenses, que ficaram chateados em não poder mais usar a Venezuela como sua fonte interminável de lucros.

A morte de Hugo Chávez em 2013 fez com que esse processo enfrentasse mais dificuldades, visto que seu sucessor, Nicolas Maduro, não foi capaz de seguir o processo revolucionário sem cair em tentações autocráticas. Mas não podemos nos enganar: a ação militar dos EUA que aconteceu na manhã de hoje, com o sequestro de Maduro, não tem nada a ver com reestabelecer a democracia no país. A intenção dos EUA é bem explícita, dita inclusive pelo seu presidente (que tem muitas tentações autocráticas, muito mais perigosas que as de Maduro): voltar a explorar o petróleo venezuelano sem restrições.

Por diversas vezes, as escolas de samba apresentaram em seus desfiles os sonhos ousados daqueles e daquelas que quiserem construir um mundo mais justo e igualitário. Foi assim com a Vila Isabel e Bolívar, a Grande Rio e Luís Carlos Prestes (1998), a Mangueira e a história que a história não conta (2019), a Vila Isabel e Miguel Arraes (2016), a Acadêmicos de Niterói e Lula (2026), o Império Serrano e Tiradentes (1949), o Salgueiro e Zumbi dos Palmares (1960), entre tantas outras ocasiões. Muitos desses enredos foram oportunidades para divulgar tais ideias para um número maior de pessoas e foram criticados por abordarem temas “que não são carnavalescos”.

As escolas de samba foram fundadas por negros e negras, moradores de regiões marginalizadas da cidade, na perspectiva do associativismo negro, buscando através delas garantir reconhecimento e direitos sociais, além de fazer samba e cultuar seus orixás. Elas beberam na fonte de diversas lutas e organizações coletivas que já haviam existido no Brasil e nos países vizinhos. É muito positivo que elas abordem essas lutas e personagens delas em seus enredos. Tem tudo a ver com o carnaval.

E também tem tudo a ver com o carnaval rejeitar a ação dos EUA feita na Venezuela hoje. Uma invasão, um sequestro de um presidente. Não é aceitável. Não dá para cantar animadamente “Para bailar ‘La Bamba’ / Cair no samba / Latino-americano som / No compasso da felicidade / ‘Irá pulsar mí corazón'” e ficar calado diante desse ataque!