Por João Paulo Gondim
No Brasil, comemora-se em 19 de abril o Dia dos Povos Indígenas. Taí uma data propícia para relembrar a trilogia indianista de Fernando Pinto. O carnavalesco pernambucano, amante da fauna e da flora, era afeito às questões das nações originárias do nosso país. Eivados de brasilidade, seus enredos traziam a força dos indígenas. Os carnavais de Fernando Pinto eram verdadeiros manifestos políticos e ecológicos em defesa da natureza e do verdadeiro dono da terra.
A trinca de enredos indianistas teve início em 1973, no Império Serrano, com “Viagem encantada Pindorama adentro”. Pindorama, em tupi-guarani, “Terra das Palmeiras”, era como os nativos chamavam o território brasileiro até a chegada dos colonizadores. Então campeã (o campeonato de 1972 havia sido conquistado com homenagem à pequena notável Carmen Miranda), a escola da Serrinha entrou com favoritismo na Avenida Presidente Vargas para exaltar lendas brasileiras, principalmente do folclore amazônico, como a da Lagoa Dourada do Upabuçu (um paraíso maravilhoso), a do Rio-Mar e a do Boitatá.
Imperava um clima de fantasia e sonho no desfile da agremiação de Madureira. Sacis conduziam um pavão misterioso no abre-alas. Navegantes compunham a comissão de frente. Pindorama era o primeiro quadro. Houve farto emprego de alegorias de mão, recurso que representava a vegetação selvagem.
A alegoria “O despertar de Guaraci” apresentava uma visão fantástica da aurora de Pindorama.
Depois de passar pelos quadros “Ilha de Vera Cruz” (onde é narrada a lenda da indígena que se tornou lua) e “Terra de Santa Cruz”, o enredo chega ao paraíso. Um grandioso arco-íris simbolizava a entrada do reino encantado. O paraíso é proporcionado pela Lagoa de Upabuçu. A alegoria que a retratava trouxe reflexos de água em diferentes tons. A escola ganhou aplausos do público e da crítica especializada. No entanto, após a abertura dos envelopes, o Império Serrano desceu uma posição no pódio: a campeã de 1972 terminou vice em 1973. A Mangueira sagrou-se vencedora.
Dez anos depois, Fernando Pinto voltava à temática indígena, agora na Mocidade. “Como era verde o meu Xingu” foi o o carnaval de 1983. Contestador, o enredo ecológico denunciava a conspurcação da região com invasão, desmatamento, poluição de rios e violência cultural. Também apresentava mitos xinguanos e imaginava a revolta da natureza, que, por intermédio de seu grupo de “camaleões guerreiros”, expulsava o homem branco. Além disso, reivindicava a demarcação das terras indígenas. Genialidade em estado puro.
Sob o sol da manhã de segunda-feira (a escola foi a penúltima a desfilar), e em meio a um visual retratando palmeiras, carnaúbas e seringais, nações como Kamaiurá e Kalapalo eram exaltadas. A arte das tribos era exibida através de plumas e cerâmicas. As fantasias não se repetiam. Cada ala apresentava motivos indígenas distintos. Um dos destaques nessa parte do enredo, que mostra a vida em harmonia dos xinguanos antes da chegada da suposta “civilização”, é o carro da região do Morená, paraíso fluvial onde nasce o Xingu. Outra alegoria marcante foi a da “ave dourada malfazeja”, cujo bico de águia soltava fumaça da poluição e trazia automóvel, cigarros e bebidas entre elementos que desestabilizavam a vida no Xingu. Na denúncia satírica de Fernando Pinto também houve espaço para indígenas aculturados andando de bicicleta e patins e seguindo sinais e placas de trânsito, mostrando efeitos da urbanização da selva. O show de criatividade de Fernando Pinto, cujas fantasias e alegorias foram expostas na Galeria Cesar Aché, não foi compreendido pelo júri, que deu o sexto lugar à escola. A Beija-Flor, que desfilou após a Mocidade, foi a campeã de 1983.
Em 1987, após um ano sabático (a pausa foi só na folia pois houve tempo para lançar disco como cantor) em decorrência de desentendimentos com a diretoria da Mocidade, Fernando Pinto volta para a escola de Padre Miguel trazendo o aclamado “Tupinicópolis”, enredo sobre a grande metrópole indígena bolada pela seminal mente do carnavalesco. Tratava-se, dizia ele, de “carnaval de ficção científica tupiniquim, retro-futurista, pós indígena. O New Eldorado”. A gênese da imaginária cidade era a seguinte: a demarcação das terras indígenas (demanda de “Como era verde o meu Xingu”) resultou na descoberta de riquezas minerais comercializadas e industrializadas por seus habitantes. Em consequência, a proliferação de ocas resultou em tabas, que cresceram até formar Tupinicópolis.
A delirante ironia de Fernando Pinto era escancarada em alegorias (apinhadas de gente para dar a ideia da superpopulação da cidade), alas, placas e letreiros que povoavam o desfile. Tinha tudo lá: Boate Saci, Shopping Boitatá (com direito a um belo chafariz), Supermercado Casas da Onça, Farmácia Raoni (encapsulando pó de guaraná e demais produtos naturais), Cine Marajoara, Tupiniquim Palace Hotel, Tupinambá Esporte Clube, Banco Tupinicopolitano, Motel Pirarucu, Bordel da Uiara, Cassino Eldorado… a invenção antropofágica de Fernando Pinto era infindável. Os patins e bicicletas de 1983 ganhavam a companhia de modernas motocicletas. A população calçava tênis, vestia gravata, usava óculos escuros e bebia Tupi-Cola, por exemplo. Com o Guarani, moeda local, comprava-se modernos eletrodomésticos.
Para proteger a selva de pedra havia a “Tupioca dos Poderes”, as forças armadas locais: “gavi-avião”, “marreco bélico” e “tatu guerreiro”. A nova civilização tomava o lugar e não precisava da antiga, aquela dos homens brancos, cujos marcos como Cristo Redentor e Elevador Lacerda eram apenas escombros varridos por garis da Tupilurb. “Tupinicópolis” encerrou o carnaval de 1987 ovacionado pelo público, mas o corpo de jurados castigou a Mocidade com a segunda colocação, atrás da Mangueira. Foi a última vez que Fernando Pinto desfilou na Sapucaí. Em 29 de novembro daquele ano, o artista morreu em um acidente automobilístico na avenida Brasil.
Recapitulando: em 1973, “Viagem encantada Pindorama adentro” traz um reino encantado inexpugnável indígena. Uma década mais tarde, “Como era verde o meu Xingu” alerta para a felicidade que sucumbiu em meio à dita civilização. Já “Tupinicópolis” encerra a trilogia em 1987 ao mostrar o modo de viver de uma selva de pedra dominada pelos povos originários. Para Fernando Pinto, enfim, todo dia era dia de refletir sobre a cultura dos povos indígenas.
Foto: desfile “Viagem Encantada Pindorama Adentro” (Rubens Seixas, O Globo)
