O anúncio de que a Mangueira conta com 10 sambas concorrentes para a escolha do hino oficial do Carnaval 2027 chamou atenção do mundo do carnaval. O número contrasta, por exemplo, com a co-irmã Portela, que receberá mais de 40 obras para a disputa deste ano. Em ambos os casos, escolas muito tradicionais e com enredos que têm muita relação com sua agremiação (Oyá, no caso da Mangueira e Monarco, no caso da Portela). Como sempre aparecem lembranças esparsas de que há alguns anos atrás a Mangueira contava com muito mais sambas (é comum ouvir nos debates que “nos anos 1990 eram mais de 60”), fui atrás de alguns números para tentar entender o porquê da Mangueira ter um número considerado baixo de sambas concorrentes.
Esse pequeno número de sambas concorrentes para uma “matriarca do samba” do Grupo Especial e o crescente número de escolas encomendando samba aumentam o debate sobre o tamanho das disputas de samba atualmente (com cada vez mais custos e exigências por parte da maioria das agremiações) e a crise nas Alas de Compositores.
Fui atrás de quantos e quais foram os sambas concorrentes na Mangueira de 2018 a 2027, totalizando 9 disputas de samba-enredo (em 2021, não tivemos carnavais). Nesses anos, os carnavais que tiveram mais sambas foram 2020 (com 32) e 2022 (com 52). E aqui já temos um primeiro ponto para debate, visto que esses foram anos atípicos na Mangueira. Em 2020, a Mangueira fez um regulamento para a disputa com regras que visavam baratear o custo da disputa e também deixar que os fatores econômicos influenciassem menos na escolha do samba. Já em 2022, em razão das restrições impostas pela pandemia de Covid-19, a escolha do samba ocorreu por meio de apresentações em lives, eliminando grande parte das despesas normalmente envolvidas na competição e tornando o concurso financeiramente mais acessível. Ou seja, diante da perspectiva de gastos menores na disputa, mais compositores se animam em inscrever um samba-enredo no processo de escolha.
Mas, justamente por essas mudanças de regra, não podemos considerar esses anos em nossa análise comparativa. Também é importante registrar que, ainda que “memórias esparsas” afirmem um passado com muitos sambas, um programa da TV Band de 1993 que acompanhou a final da disputa de samba daquele ano na Mangueira, mostra que naquele ano foram 15 sambas concorrentes.
Os números mostram uma redução paulatina no número de obras concorrentes de 2018 até a disputa atual: eram 18 em 2018 e agora temos 10. Nesse intervalo, ainda tivemos duas disputas (além das excepcionais citadas acima) com mais que 20 sambas: 23 obras em 2024 e 22 obras em 2026 (sendo que 6 foram oriundas da disputa ocorrida no Amapá). Nos outros anos, tivemos 16 sambas em 2019, 20 sambas em 2023 e 11 em 2025. Há uma variação importante ano a ano, com tendência geral de queda, ainda que com variações.
Olhando para quais foram as parcerias concorrentes, podemos observar que dois importantes compositores, Hélio Turco e Tantinho da Mangueira, que lideravam parcerias, faleceram. Além disso, tivemos a formação de algumas “super-parcerias”, movimento iniciado pela junção da parceria de Lequinho, Junior Fionda e Gabriel Machado com a parceria de Guilherme Sá e Paulinho Bandolim e seguido posteriormente pela formação de uma parceria com nomes que estavam dispersos em outros grupos, como Tomaz Miranda, Igor Leal e Pedro Terra. Esse movimento de “vai-e-vem” é comum também em outras agremiações, com parcerias que se juntam e se separam conforme os enredos, o resultado das disputas e também por conta do ambiente política de cada escola.
Nesse período, na Mangueira, tivemos 10 compositores participando de todas ou quase todas as disputas (Alexandre Naval, Celso Tropical, Gabriel Machado, Gilson Bernini, Guilherme Sá, Gustavo Louzada, Junior Fionda, Lequinho, Paulinho Bandolim e Pedro Terra). Nas disputas mais recentes, também têm sido frequentes as presenças de compositores consagrados em outras escolas, como Chacal do Sax e Xande de Pilares.
Embora seja precipitado atribuir a redução do número de sambas exclusivamente a um único fator, é possível perceber que as disputas vêm se tornando um ambiente progressivamente mais restrito, acessível sobretudo às parcerias capazes de mobilizar recursos financeiros, redes de apoio e capital simbólico suficientes para sustentar uma campanha competitiva. Além do falecimento de compositores consagrados e da junção de parcerias, temos cada vez menos aquelas parcerias formadas por até 3 compositores, que fazem gravações quase artesanais e vão eles mesmos pro palco defender o samba.
Contraditoriamente, a Mangueira é uma das escolas em que a Ala de Compositores tem mais vida orgânica. Nesse período (2018-2026), por exemplo, foram realizados dois concursos de Samba de Terreiro, que movimentaram a escola. Mas isso ainda não se refletiu em maior participação no concurso de samba-enredo ou na atração de novos compositores.
Ainda que o número de 10 sambas concorrentes não seja fruto só de questões internas à escola e que não seja determinante para apontar uma “crise” (como muitas vezes é lido num olhar mais superficial), é importante que esta quase centenária agremiação se debruce sobre o tema, fazendo busca dos compositores, tentando entender o que aconteceu para esse afastamento.
